sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Águas Nascentes


O que há por trás dessas águas? Perguntava-se o menino olhando com curiosidade para a nascente. Olhava para aquelas águas desconfiado com os olhos mais abertos e menos cotidianos. Olhos açucarados tentando enxergar as nervuras do chão através da lenta e silenciosa correnteza. Observava aquela água minando das pedras, pelas brechas, pelos vãos. Eram as nascentes da Serra que brotavam do chão como numa mágica...

Sempre tivera a curiosidade de ver o que havia lá dentro daquele mundo transparente das águas. Mas sonhava além. Peixes, areias claras arrastadas pelo aluvião. Enxurradas no tempo das chuvas. Tudo num ciclo sem fim de finais e recomeços.

Morava pelas redondezas, em outras encostas, perto das águas. Da janela via as subidas e descidas da serra e o infinito azul do céu... E a água ia jorrando espumas, cuspindo peixinhos. Vez por outra o menino punha seus pés nas águas para sentir-lhe a frescura enquanto o sol seguia pelo arco celeste curtindo-lhe a pele.

Por um longo tempo ficava absorto. Ouvia o canto sutil das águas. A música que viajava em seus ouvidos. Queria apenas continuar molhando seus pés na nascente, sentindo seu cheiro molhando a terra, o mormaço ardendo em suas narinas. Queria só ficar olhando os minutos passarem além da nascente, do sol, da coreografia das águas.

Sabia que não podia viver longe da serra, nem daquelas águas cristalinas. As águas eram seu destino. Olhava para a serra ofegante e para as águas frescas e queria dar-lhes vida em seus sonhos.

E dentro de si, no encalço da atitude mais silenciosa queria ouvir a voz do universo naquelas águas benditas. Águas da nascente.

Texto e formatação da imagem por Claude Bloc

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Seixos & Conchas


Meu sonho agarra-se na areia
virando conchas
virando seixos

Embalo pela areia quente
sonhos salgados
de maresia


Sopro dentro dessas conchas
os meus segredos
virando espuma
virando areia



E remexendo meus sentidos
ouço a saudade
e as marés
virando som
virando sonho
virando mar.


Texto e fotos de Claude Bloc

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Quando digo que te amo - Roberto Carlos


letras de músicas no letras.com.br

Setembro - Ensaio Fotográfico

.
Poderia ser apenas
mais um dia, em setembro,
o que por si só é encanto.
.
Poderia ser apenas
mais um dia de espera
de flores ou de espanto.
Sim, poderia, mas no entanto
a roda da vida gira
e o vento descose o tempo
e o tempo trará depois
muitos outros meses lentos
até chegar outro tempo
e outro mês de setembro.

Adicionar imagem
Eu sei que te encontrarei
Um dia, mas não sei quando
quando vierem as flores
novos dias, novas cores,

quando minh’ alma atenta,
aos teus pequenos sinais
mostrar-me em sua essência,
tua falta, minha ausência

>

pois nem sei mais como posso
guardar alguma esperança
e onde esconder a saudade

Pra converter o teu riso
no fio de minha história
Apagando esse frio
o vazio
o silêncio
em mais um mês de setembro

.
Fotos e texto por Claude Bloc

(também em homenagem ao "dia da florista")

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ruas de Outono - com Gal Costa


Ruas De Outono

(Gal Costa)

Nas ruas de outono, os meus passos vão ficar
E todo abandono que eu sentia, vai passar
As folhas pelo chão que um dia o vento vai levar
Meus olhos só verão que tudo poderá mudar
Eu voltei por entre as flores da estrada
Pra dizer que sem você não há mais nada
Quero ter você bem mais que perto
Com você eu sinto o céu aberto
Daria pra escrever um livro, se eu fosse contar
Tudo que passei antes de te encontrar
Pego sua mão e peço pra me escutar
Seu olhar me diz que você quer me acompanhar
Eu voltei por entre as flores da estrada
Pra dizer que sem você não há mais nada...

cortesia de http://www.letras.com.br/

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Quebrar-se em mil...


Meus ouvidos captavam sinais de vida pelos vãos da memória. "Você pega o trem azul", lembra da música? Lembrava ou não? Também não sei de onde ouvia o apito: "Estação do Cratooo". Foi quando uma menina encabulada desceu da plataforma e me cumprimentou. “O que você tem feito de você?”, perguntou sem muito interesse pela resposta. Acho que eu estava dormindo, ou sonhando, sei lá.

Minhas lembranças sempre me traziam, nessa época, esses pedaços de tempo costurados num presente lerdo de silêncios. Nostalgia, então, era meu remédio e minha doença. Estava sempre às voltas com esses fragmentos de memória misturados em minha alma, complacentemente. Costumava perder-me nas teias de um passado sedoso e macio e não queria mais aceitar essa vida de tantas dores e desalento. E por muitas e muitas vezes, tentei exilar-me na solidão e na obscuridade. Para não errar mais o caminho, para poder um dia voar e poder voltar a sonhar.

Foi difícil sair desse marasmo, mas agora meus silêncios não são mais vazios, nem precisam de passado para se abastecerem de sorrisos e de alegrias. Normal isso, acredito. Eu aí ansiava pela paz e mais que tudo, queria de volta a vida em minhas mãos, pois que eu já houvera percorrido um longo calvário.

Hoje, vivo remexendo na minha bolsa buscando trecos.O passado não fica guardado lá dentro, mas sei que sempre trago naquela bagunça algumas passagens de ida e de volta. Como disse certa vez a uma amiga querida, “basta ter a passagem de volta". - Tem razão, minha amiga! E depois disso, passei a voltar ao Crato contumazmente. Mas antes, passei por muitas, até chegar ao ponto em que estou.

Há alguns anos, e por muitas vezes, quando ia ao Crato, eu procurava em vão um rosto amigo que me acompanhasse por tantas badalações e brincadeiras, mas não achava. Não sabia mais onde as pessoas estavam e, tal como muita gente que conheço, sentia-me quase uma “estranha no ninho”, quando perambulava por aquelas ruas que ainda guardavam as marcas dos meus passos. Creio que, em parte, a culpa também era minha, pois vivia sob a proteção de escudos, presa numa redoma de inconformações e angústias.

Até que um dia, consegui redescobrir e reencontrar a linha azul da Serra do Araripe. E quando falo na Serra falo na gente, nos amigos, na vida. O Crato sempre foi e sempre é o expoente máximo de esperanças e de alegrias que eu possa ter ... e eu o havia perdido durante tanto tempo, por muitos desses acasos que se agregam na gente compulsoriamente, além da nossa vontade.

Imagens de um outro dia, de uma outra vida ou de um outro pensamento, passaram a voar livres diante de mim. Caminhei muito, sem mais tédio, sem mais nada que me incomodasse. Guardei as lembranças num lugar seguro. Vez por outra elas me escapolem, mas ao vê-las, passo a lustrá-las para que não mais escapem. Guardo também, e ainda, aquele velho Hermann Hesse perdido em alguma mochila rota. Lá está um lírio envelhecido pelo tempo com inscrições quase rupestres. Também ouço alguma música ao fundo da noite. Péssima, diga-se de passagem. Mas deixei quietos meus fantasmas, lá mesmo onde estavam. Havia perdido, por um tempo, o mínimo senso de humor. Mas cá estou agora neste novo espaço. Sobrevivente de um marasmo que não mais existe.

Foi por isso e por tudo o mais, que me pus a escrever este texto. Assim como quem exorciza uma fatia de tempo. Sentei-me num daqueles banquinhos para fora da redoma antiga. Meus pensamentos estavam quietos e mornos. Tirei então um papel da velha mochila e meus dedos buscaram uma caneta. Rascunhei despretenciosamente. Precisava de sílabas mais do que de pretensões. Perdi-me, aí, nos prazeres de escrever enquanto mandava aos céus minhas saudades. Poli essa solidão programada, e fui arrancada de meu planejamento por um sorriso confuso e sincero, por aquela animação pueril que só você provoca. E lá fiquei com todos os meus "eus" e todos os "seus".
“Feliz é quem sabe quebrar-se em mil e manter-se único.”

Texto e foto por Claude Bloc

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Crônica para você - Por Claude Bloc

Quando somos jovens achamos muitas vezes que tudo é tão difícil! Primeiro vem o sonho. Nunca sabemos se aos poucos conseguiremos realizá-lo, mas por alguma razão desconhecida continuamos sonhando.
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A seguir, vem uma série de artifícios e processos, como, por exemplo, o questionamento dos outros sobre nossa escolha sobre o futuro, vem a expectativa dos nossos pais, e principalmente, aquela perguntinha martelando na nossa cabeça: “será que vou conseguir”? Não sabemos, portanto, a esta altura, que esta será uma pergunta constante durante o restante de nossa vida.
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Aí, então, começam as renúncias, que se estendem pela vida a fora: desde festas e passeios até falta de atenção à família, aos amigos, à/ao namorada/o…mas sempre há motivos de renúncia. (Ou não!). No final das contas todos nós podemos escolher, e é justamente quando o cansaço bate, quando a mente está já tão cheia de informações e de conhecimentos, quando não conseguimos aprender mais nada (mas não largamos o livro), quando todos reclamam que estamos estressados... sim, é nesses momentos que alguma escolha é feita.
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Poderíamos até ter seguido pelo caminho mais fácil, ter curtido toda nossa juventude intensamente, ter vivido para nós mesmos e pro mundo. Mas não, seguimos sonhando... Obviamente o tempo passa e com ele tudo segue passando. Mas a vida continua, e acabamos deixando de lado muitas vezes as pessoas que mais amamos. E agora? Pomo-nos à prova. Tentamos decidir nosso destino ou seremos jogados na jaula novamente junto ao nosso passado e às nossas lembranças.
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Depois de muitas intempéries, acabamos acreditando que estamos livres e que nos havíamos livrado das noites em claro, das tempestades, dos enganos nossos de cada dia. A ausência dos amigos aumenta. Tentamos modificar toda nossa vida. Mudamos de cidade, moramos com pessoas totalmente desconhecidas, temos que aprender a nos virar de todo jeito, porque é assim que aprendemos a crescer.
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De repente percebemos, então, que não tem mais jeito, que nossa adolescência passou e que a queremos de volta, mas não podemos mais tê-la, porque não dá mais tempo agarrá-la. Nossos amigos agora são outros; e daí, nós também não entendemos por que eles não são como os de antigamente.
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É aí que passamos a ter medo, e este acaba se tornando nosso maior amigo. Temos medo de fracassar, de ter chegado tão longe, mas sem saber direito para onde ir. Sentimos vontade de chorar, mas aí já somos quase adultos, e temos que ser fortes... Afinal, não foi assim que nos disseram? Que devemos ser fortes sempre? Que o resto é manha? Mas temos esse direito?

É aí que nos deparamos com o futuro. Nossos últimos anos foram de coragem e de batalhas. Batalhas estas que nunca acabam e vão ficando cada vez mais difíceis de vencer. Surgem as perguntas: Onde estão meus pais? Onde estão meus amigos? Pra onde estou indo? São tantas as dúvidas… Deveríamos ter um dicionário para responder a essas questões tão esdrúxulas. Porque ninguém nos diz o que vamos encontrar pela frente ou como isto ou aquilo vai ser. Mas... mesmo assim continuamos. .

Então passamos a refletir sobre nossos sonhos, sobretudo sobre aqueles que ainda não realizamos e que não somos capazes de esquecer. Diga-me, fale-me: a esta altura você seria capaz de deixar isso fugir do seu coração? .

Agora nossa vida é esta. Apesar de ela ser repleta de insegurança, é, no entanto, e ainda, cheia de sonhos. E essa nossa vida passou agora a ser também a vida de outras pessoas. Amamos. E amamos tanto tudo isso! Amamos encontrar as mesmas pessoas todos os dias, amamos também porque não temos tempo para nós mesmos, amamos, amamos, amamos… amamos de um jeito que não valeria mais a pena viver se isso tudo não existisse. ..

E por mais que não queiramos aceitar, e por incrível que pareça, nos encontramos hoje justamente naquilo que nos fez sentir tantas vezes perdidos. Mas é assim. Foi uma escolha nossa e, a cada tempo procuramos fazer a melhor escolha que possamos imaginar. Eu hoje escolhi vocês, meus amigos de hoje e de sempre.
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Foto 1: Atrás: Dominique, Pedro Silvino e Claude // no meio: Roberto e Ricardo Saraiva e Jean-Pierre (primo) // na frente: Bertrand e Jacques (irmãos)
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Foto 2: da esquerda para a direita = 1. (não lembro do nome) 2. Gracinha Pinheiro C. - 3. A cabeça de Vanda - 4. Ismênia Braga Brilhante - 5. Glória Pinheiro C. - 6. sentada = eu - 7. em pé = Ana Ricarda Ribeiro
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Foto 3: Turma do Pimenta: Fátima Lacerda (com a irmã mais nova), Cristina (de Seu Luiz Gonzaga) abraçando Iza (minha irmã de criação), Eduardo, Glória e Zé Junior (Lacerda), Carlinhos (na frente de Zé Junior), Rita de Cássia (falecida há pouco tempo), Ana Ricarda (na frente de Rita), Primo de Gracinha e Gracinha Pinheiro, Claude (atrás) , Marcelo, e ajoelhado Renato Pinheiro com Meirinha nas costas.
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Texto e fotos por Claude Bloc
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terça-feira, 21 de julho de 2009

Stardust - Willie Nelson

Retrato - Por Claude Bloc


Está em mim seu retrato
circunscrito
na retina – câmera da minha objetiva.
Capto seu gesto
A forma e o momento
que se insere para sempre
em meu álbum de imagens.

Está em mim o registro,
A lembrança
que folheio com a alma
em todas as tardes,
nas manhãs de julho,
nas noites febris.

Está em mim
O espaço em branco
Onde vivo o texto.
Buscando a hora noturna.
Urgentemente.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Something - Paul Mc Cartney, Ringo Star, Eric Clapton

Something
The Beatles
Composição: George Harrison

Something in the way she moves
Attracts me like no other lover
Something in the way she woos me

I don't want to leave her now
You know I believe and how

Somewhere in her smile she knows
That I don't need no other lover
Something in her style that shows me

I don't want to leave her now
You know I believe and how

You're asking me will my love grow
I don't know, I don't know
You stick around now it may show
I don't know, I don't know

Something in the way she knows
And all I have to do is think of her
Something in the things she shows me

I don't want to leave her now
You know I believe and how



sexta-feira, 17 de julho de 2009

Decibéis

Decibéis
Tons acima do som
Sons acima do tom
Na cor
Que a noite reveste
Cinza-poema das horas
Em ondas sonoras
Texto de Claude Bloc

Noite festiva - Colheita de sonhos- Por: Socorro Moreira - Fotos by Claude Bloc

Painel by Claude Bloc

( A maestrina Bernadete Cabral , Rosineide Esmeraldo , Stela Siebra, Maria Luiza e Nilo Sérgio)

Como extensão dos ensaios , e aproveitando o entusiasmo do reencontro , O Madrigal Intercolegial reuniu-se na casa de Zélia Moreira para comemorar o aniversário de Carlindo Costa.

(Carlindo Costa, Roberta Arraes, Zélia Moreira e Nacélio Oliveira)

Debaixo do teto, e aos pés do coração da anfitriã , o grupo entoou risos e risos !
A gente sabia que o tempo era passado , e que o presente era vivo !
(Luiz Felisberto , Nilo Sérgio e Hugo Linard)

E era o gosto de reviver , e era o juízo de poder fazê-lo .

- De Chico Buarque a Jackson do Pandeiro , entremeados de valsas e canções, aprendidas na estação da década mais feliz das nossas vidas.
(Francisco Peixoto , Liduina Vilar, Claude Bloc)
Peixoto era rítmo e coração , como um dos ases da nossa emoção.
Não eram pares, nem trios, nem solos. Era a companhia !
( Joaquim Pinheiro , Stela Siebra, Hugo Linard e Socorro Moreira)

Da infância ao limite de um tempo feliz : Hoje, sempre !

A expressão do que ainda é :
a confiança no entendimento
o novo em todos , no intacto antigo.

Dona Bernadete - resistência entusiástica na festa e na reza.

Hugo , "o peralta Zezinho", de Mons. Montenegro - contando as suas diabruras e, reafirmando no acordeon , a sua genialidade artística.

( Divani Cabral , Hugo, Peixoto e Anderson Xenofonte)

Nos anos 60, Arte e Educação já eram casadas no ensino cratense.
Divani , a sacerdotisa que celebrava as bodas :

Jograis, corais, espetáculos teatrais . Música, Dança , Cinema , como a "Fantasia" de Walt Disney.
Uma noite por ano , num país diferente ( Japão, Espanha, Portugal).
Transposição de todas as artes para as nossas vidas.

Aliança subliminar intercolegial.

Geração dourada , hoje florida !

- Aquarius !!!

Fotos : by Claude Bloc

Texto : Socorro Moreira

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Quando o passado deve ser lembrado - Por Claude Bloc

Há certos resgates de nosso tempo que nos obrigamos a fazer ou acabam por se perder na obscuridade do esquecimento. Louvável, pois, a iniciativa desse grupo de pessoas que viveu sua adolescência na década de 60 e que teve a idéia de promover um rico registro de fatos pitorescos ocorridos no exato espaço da Praça Siqueira Campos (Crato – CE).

Na verdade, fez-se uma coletânea de depoimentos, a partir de um grupo de amigas e amigos que passou pela experiência de ter sua vida surpreendida pelo amor (ou pela descoberta dele), no momento em que transitava pela praça Siqueira Campos, nos idos dessa decantada época. Amores que se mantiveram (ou não) até os dias hodiernos. Sentimentos acalentados, inacabados, eternos.

Interessante, pois, tanto quanto louvável, a construção dessa tessitura de ensejos rebordados de tantos sorrisos e alegrias.

Foi, portanto, memorável estar presente nesses eventos comemorativos e poder tomar parte dos festejos no lançamento do livro “ Anos Dourados – Praça Siqueira Campos” – retreta, coquetel, alegria – e ouvir na voz de Vicelmo e de Eleonora Albuquerque, dentre outros, o concerto efusivo dos tantos corações reunidos numa belíssima festa, vibrando com tantas boas lembranças de um passado tão bem preservado.

Na foto acima: Diana e Eleonora Albuquerque ladeando Claude Bloc

Registro aqui, igualmente, nos festejos no Crato Tênis Clube, a presença de Dr. Humberto Macário de Brito, amigo pessoal, muito querido de meu pai Hubert Bloc Boris, que emocionou-se com tantas manifestações de carinho, sobretudo ao descobrir-me ali, mencionando meu pai e pondo de volta em seu peito o amor fraterno e a amizade imensa e inabalável mantida entre ambos por tanto tempo.

Na foto acima: Dr. Humberto Macário de Brito e Claude Bloc

Por mais que muita gente considere a saudade como marca de retrocesso, ou a relembrança como ato supérfluo e descartável, pergunto: como explicar essa sensação deliciosa que nos toma quando tanta coisa boa nos retorna nos reabastecendo de felicidade?
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Postado por Claude Bloc

terça-feira, 14 de julho de 2009

Você - Por Claude Bloc


Não conseguia dormir. A noite parecia alongada pela hiperatividade da alma e pela sede de viver os segundos como quem respira o último desejo, a última instância das horas. O que me restava eram, então, eternidades que se abriam para mim, e, em suas asas, eu viajaria sem medo, já que não havia tempo para recusar nada nem me arrepender.
De repente, viver tornou-se simples e urgente! Te segui em minhas lembranças e o fiz de corpo inteiro, como nunca houvera acontecido antes. Somente agora, podia sentir a vida pulsar, o pulso marcando o instante em vibrações por segundo, mar vermelho abrindo caminhos para o infinito do espírito. Tinha certeza que os deuses me entenderiam.
Lembrei-me de ti. Tinha ainda guardada num baú uma rosa seca, marcando uma página de uma tarde clandestina, roubada do tédio cotidiano, tarde de versos sussurrados e bocas sedentas...
Num impulso disquei teu número, pois o que é eterno sobrevive às novas tecnologias. Aguardei os segundos decisivos.
No meu quarto, os violinos de Wagner suavizavam a ânsia da espera, como que anunciando o encontro. Meia hora depois, a campainha tocou, e eu perfumada de saudades acumuladas por verões hibernados, abri a porta.
Agora, a música anunciava a dança, começando pelos olhos , pelo abraço, mãos e respiração. Noturnos seres que se encontravam em uma tarde silente.
Primeiro nos comunicamos pela respiração , foram uns cinco segundos assim, um silêncio ofegante, e, para minha surpresa , pronunciaste meu nome como antes, no mesmo momento em que o violino vibrava em sustenidos sóis, o agudo instante do reencontro! Minha voz era um fio, tua voz estava impregnada em meus sentidos.
Te convidei para um café no meio da tarde. Queria te ver há tanto tempo!
Mesa posta, xícaras dispostas sobre a mesa, cheiro de café no ar. Olhares. O tempo parecia não ter passado, éramos os mesmos, o mesmo cheiro, o mesmo sorriso, o mesmo desejo de felicidade. A vida se refez, exatamente quando resolvi seguir os conselhos de minh’alma. Percebi-a mais leve, descomplicada, sem a angústia que todo 'futuro' contém.
Senti-me livre! Minha alma gótica se acalmou. Saí da caverna à qual estava acorrentada, vi a luz que irradiava lá fora, e que as sombras, que em mim habitavam, me impediam de senti-la. Nem imaginava que, ao mínimo contato com essa energia cósmica, a minha própria luz seria revelada, através de ti, como o próprio sol!
O restante do dia, então, se dissolveu. Descobri o eterno hoje.


Postado por Claude Bloc

O amor antigo - Carlos Drummond de Andrade

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mais pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond

Postado por Claude Bloc

sábado, 11 de julho de 2009

Amar - Carlos Drummond de Andrade


Há coisas que nos passam e que nos voltam...
Lembranças que nos ficam para sempre...
Sentimento, vendaval travesso
Que nos revira e nos remexe...

AMAR

.................... Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sonho-te - Por Claude Bloc

São estes os passos
que se alastram pela solidão da tarde.
E o sorriso não consegue domá-los
nem contê-los.
Chegam-me as réstias
o resto, o pó de tuas palavras
A aspereza de um gesto
desnecessário
Hoje sonho-te
e tuas mãos estão inertes
e se calam
no calor da tarde.
.
Texto e fotos - por Claude Bloc

Roberto Carlos canta...


Roberto Carlos canta...

MAIS UMA VEZ

http://www.youtube.com/watch?v=7bp3mQVOZgY

Estou sempre voltando ao Crato - Por Claude Bloc


Há momentos em que a emoção não consegue sem barrada nem velada. Pelo contrário, nos sentimos embebidos/as dela, encharcados/as da mais linda amizade que se pode ter. A amizade que nos chega ás raízes da vida e nos joga de volta aos longínquos laços deste sentimento mais que precioso.
Agradeço, portanto, a José do Vale por este texto a mim dedicado, quando mais uma data de meu curso de vida em mim se completa.
Escolhi o Crato para estar nessa data entre amigos. Para comemorar a vida. E para agradecer o carinho que todos têm me dedicado apenas com minha presença, pois que as palavras seriam ínfimas e insuficientes diante do que sinto e nunca conseguiriam expressar o “bastante”.
Então, me aguardem... Estou chegando. Estou sempre voltando ao Crato

_____________________________________________

Dentre meus muitos gostares existem alguns que cultivo, que vou dilapidando e polindo, que vou cravejando com preciosas prendas. Nesta constante metamorfose, vou produzindo em mim uma eterna reforma, me tornando, nesse enredo, um verdadeiro universo em ebulição constante. Nesse universo estão meus limites (físicos ou não) e estão plantadas minhas raízes, meus melhores afetos, minhas boas lembranças. Fico então delimitada: bem ao centro está minha perspectiva de vida, mirando para o Sul do Ceará, ao norte dos meus sonhos perenes.

O Crato é sim, queiram ou não, singular nesses muitos aspectos que me aprazem, dentre os meus muitos gostares. É singular em arte, em costumes, em humor, em vida. Singular em verso ou prosa, muita prosa! É peculiar em sua maneira de ser cidade. Em seu modo de ser um recanto sempre lembrado, mesmo pelas ovelhas desgarradas pela imposição da vida. E, como já citei muitas vezes, o Crato tem um ímã do qual a gente da terra não consegue se desgrudar, pois que, quem ama o Crato não o ama superficialmente, mas o tem bem no centro da alma, como uma essência indelével e inolvidável.

Quem ama o Crato como eu, é sensível aos espinhos de suas trilhas e padece com as farpas estranhas à doçura que lhe é peculiar. O Crato é doce. Tem o açúcar das canas e dos canaviais, tem o mel no coração das pessoas que circulam pelas linhas do seu destino. Tem o tijolo de buriti que lhe serve de pilar e que assanha a verve dos mil poetas que (de)cantam a “flor da terra do sol”: “Sou teu filho e ao teu calor, amei, sonhei, vivi”.

O Crato é então esta obra de arte encravada bem no centro do meu coração (e no de todos os cratenses). Nem ao Norte, nem ao Sul. E me sinto centrada neste amor tranqüilo que equilibra meus humores. O Crato está na vanguarda, além dos limites dos pobres de espírito. O Crato é então “o meio e o curso que faz o curso se mover”. Seu povo é generoso e bom.
Mas (como bem diz José do Vale) poderíamos chamar o Crato de mundo e nele evocar a vida. Comemorar a vida em meio aos amigos, pois que nesta dimensão, em meio a eles, serei parte desse inquestionável e amado universo.

Texto e imagem de Claude Bloc

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Flor de Laranjeira - Por Claude Bloc



Pareces nem me reconhecer quando entro. “Cheguei”, e é tudo quanto consegues dizer porque a emoção te prende a voz. Prendes-me também num abraço interminável... Permaneço impassível. Não consigo pensar, mover-me, retribuir teu gesto desolado e amarrotado de saudade. Sempre quis te encontrar, simples assim. Sempre quis. Te busquei na memória tantas vezes e outras tantas colhi teu sorriso (quando perdia as esperanças) nos escritos do meu diário.

Lá tu sempre estavas. Belo e amigável como nas horas em que te vinculei como fogo indelével às minhas lembranças. Enfim, chegaste. E ali permanecemos, juntos, envoltos no aroma de flor de laranjeira que, do quintal, invadia a casa. Os pardais nos tocaiavam sem entender a novidade.

O chão, então, pareceu cobrir-se de um tapete perfumado de flor de laranjeira. Passeei sobre ele. Os ramos das laranjeiras estavam agitados, agitados os sentimentos que me perpassavam. Lembro-me de tudo. De minhas vãs tentativas de te encontrar. Repeti tantas vezes o teu nome, entrelacei-o ao meu tentando sentir tua presença. Mas o tempo e a vida nos afastaram. E tu não conseguiste separar as coisas no seu devido tempo. Não soubeste acolher minhas palavras de desamparo, nem te esquivar dessa vida que levas encerrado nos espaços vazios de tua alma.

E no entanto cá estou, na penumbra à tua sombra. Desce sobre mim uma chuva de pétalas. Flor de laranjeira. As árvores oferecem os frutos carnudos aos nossos olhos...alguns nos ramos mais altos. Não consigo alcançá-los. Então pousas na minha página em branco. E novamente deixas escrito mais um verso. Tu e eu somos um só, a poesia, o poema.


Por Claude Bloc