quarta-feira, 3 de março de 2010

Pé de Baraúna
- Claude Bloc -

O que restava do pé de baraúna até uns 4 anos atrás

.Quando crianças, acreditamos em tudo. Nos põem medo do que não existe, criam enredos que passam pela tangente da imaginação, rebocam as paredes da nossa criatividade, sem direito a pesar ou medir o resultado do desenlace e a autenticidade dessas fantasiosas empreitadas.

.Pois foi lá em Serra Verde que me apareceu uma dessas histórias meio escabrosas a qual, na verdade, nunca quis experienciar, nem fazer o teste de S. Tomé.

Era o seguinte: todo final de tarde a turminha de irmãos, primos e amigos que passavam as férias na casa-sede com a gente, depois de um bom banho no açude, seguia em bando para passear a pé pela fazenda. Havia algumas opções para os passeios: dirigir-se à Represa (do açude) onde morava a família Carlos, João Paulo e “Sulidade”, Maria de Geraldo, João Soares e João Franco com suas devidas famílias. Ir até o engenho no mês de julho, ou simplesmente ir à bodega de Seu Moreira, pra comprar algum bombom. Ir até o Jardim, sítio dos Botelhos e Aurélios (Orelo), que ficava perto do engenho ou pros lados do Guedes, aonde depois vieram morar Mãe Cândida (Cãida) e Mãe Naninha, duas irmãs, boleiras de mão cheia. Havia também a opção de subir a ladeira da Serra, em direção à casa de Seu Manoel Dantas. Cada tarde havia, portanto, uma opção diferente para se escolher.

Nesses passeios, em cada terreiro uma saudação aos donos da casa, um gracejo, ou se ia “escruvitiar” pelo chão de terra em busca de pedrinhas coloridas ou, quem sabe, subir nos pés de cajarana em busca dos frutos de vez... Eram portanto, mil estripulias, sem contar com o drible às vacas que ruminavam pela estrada, ou pelos terreiros das casas...

Quando se ia à Represa, o passeio era mais aprazível. Seguia-se pela orla do açude, sentindo o hálito da tarde refrescando-se aos poucos até amofinar-se na boca da noite. Na hora em que os primeiros sinais da noite apareciam e os sapos e a jias começavam sua serenata inteiriça, a gente, “foi-não foi”, voltava naquela algazarra, trotando em cavalos de pau tirados da própria mata, cantando e apelidando uns e outros, mesmo que o freguês não gostasse... Atrás de nós, os rabiscos dos galhos pelo chão traçavam sonhos que mais tarde a gente buscava naquela terra como remédio para as nossas fragilidades hodiernas.

Já quase chegando em casa, subíamos a última ladeira que embeiçava o açude e fatalmente passávamos por um velho pé de baraúna, altivo e sinistro. Seu tronco ocado estava sempre quase abarrotado de pedras atiradas pelos passantes. Aquele vão no tronco da árvore parecia nunca se satisfazer, pois nunca estava completamente cheio. Naquele nosso tropel, sempre conduzimos alguma pedra na mão para ali depositarmos o que, para nós, significava uma passagem sem sustos para o que nos restava de caminho até chegarmos em casa. Assim, acreditávamos estar alimentando a árvore e dessa forma não correríamos o risco de ver a assombração que aparecia no pé de baraúna a partir do cair de uma noite fechada.

Pois é, seu João Franco e Seu Joaquim Carlos juravam ter visto sair dali, no meio da escuridão, um cachorro preto de olhos de fogo... E o bicho só parava de segui-los quando chegavam no terreiro da casa-sede. Daí......... você se arriscaria a passar lá de noite sozinho/a? Quem disse? (Eu também não!)

O que se soube foi que um dia o cachorro dos olhos de fogo “deu uma carreira” em Seu João Franco e o mordeu (não sei aonde)... E conta a lenda que toda noite de lua cheia seu João Franco virava lobisomem.

Acredita nisso? Não?

Texto e foto digitalizada por Claude Bloc

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Ele
- Claude Bloc -


Eis que retorno ao ponto de partida pois que vivemos em direções opostas. Não por acomodação, mas por precisar especificamente desse retorno posterior. Mesmo pensando que a história poderia ter sido outra qualquer.
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Não sei como explicar o tanto que ele sabe de mim, ainda que o silêncio nos ronde e nos falemos tão pouco. Vemo-nos, entre distâncias e (in)quietudes. Ele é o cessar dessa ardência sufocada e o caleidoscópio dos sonhos vencidos. O fim dos engodos, das cobranças, das (in)conveniências. E se ele é o fim (?), é por ele que me (re)faço e (re)inicio minha jornada.
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E ainda assim, eu me ausento e ele me faz voltar. Ele que poderia ter-me esquecido, mas não fechou a porta, porque não dá pra explicar o que nos acontece nos dias em que as flores se adornam e se entregam e o sonho se faz farto, mesmo que doído.
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Eu poderia dizer que o vejo quando a lua crescente dança e se descortina no meu purgatório. Poderia afirmar igualmente que entendo as ambições de sua alma. As suas querências. Mas me calo a cada anoitecer, vencida pela saudade.
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Ele já poderia saber que gosto de me deitar numa rede quando o sono me procura. Ou poderia imaginar os malabarismos que faço para segurar as coisas entre os lábios cerrados quando me faltam as mãos. Pois ele sabe que possui o que é meu também e chora pelo que choro.
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Ele sabe de mim. Sabe quem eu sou, num reflexo sem distorções. Está nele minha polaridade feminina, pois ele é a terra que acolhe meus pousos e eu sou o fogo que dissipa sua solidão. Somos solitários e solidários. E certamente quando nos negamos, não é rejeição: é proteção.
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Por isso guardo os beijos que não dei. Beijos sem reservas. Olhos nos olhos, como deve ser. Sem condenação, sem disfarce. Vastos dentro de mim.
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Por isso, não dá pra explicar essa (in)constância entre nós e muito menos essa (in)conveniência de pedir sempre mais da vida por acharmos que ela nos deve tudo e, no entanto, o que temos abrevia-se em nós mesmos.
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Assim sendo, eu poderia escrever linhas e mais linhas sobre ele, todas cheias de parênteses. Trechos e mais trechos, todos sem reticências. Porque escrever sobre ele é discursar sobre mim mesma, e eu (nos) resguardo no silêncio. Por tudo isso ele está em mim: ele, meu passado.
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Texto e foto por Claude Bloc
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010


No balanço da rede
- Claude Bloc -


Se houvesse espaço na minha rede, eu diria que a saudade dormiu lá esta noite. Que meu sonho acordou mais cedo, pra me vigiar, pra ter certeza de que eu saturei todos os meus sentimentos neste momento.

Tenho escrito vez por outra sobre isto e sobre tudo, mas palavras têm sido insuficientes. Elas têm dito tão pouco. E eu tenho sentido tanto a intensa falta delas que por vezes me sinto ausente, inerte, em plena maré de calmaria e não consigo alcançá-las... E surge, então, uma monótona resistência ao silêncio, um atropelado sossego para onde seguem as ondas e as turbulências. Onde eu me fixo, talvez, ancorada em algum porto. Onde o vento não sopra. Onde a areia vadia castiga a tua ausência...

Lá os dias passam. Se enfileiram simplesmente, uniformes e iguais... Ficam em mim os vazios. Vazios de uma presença que vou preenchendo no balanço da rede.

Foto e Texto por Claude Bloc
Lambendo as patas
- Claude Bloc -


Esticou-se na varanda a tarde toda
e assim ficamos eu e ele
cada um em seu canto
entre os rompantes do sol
e o gosto salgado da brisa...
Ri sozinha.
Pela minha mente
frases inteiras borbulhavam,
mas havia indiferença
naquele olhar (des)atento
quase risonho.
Pairava nesses olhos
uma dormência felina
que estremecia
com o esticar desajeitado das pernas
com o lamber quase constante das patas
deixando-me entrever o corte harmonioso
daquela boca dentada.
Senti-me nessa hora absolutamente dispensável
.
E assim, passou a tarde.
Dias achatados como o de hoje
fizeram fila na minha frente:
pressupostos da vida
mudanças de lugar
levando meu sonho junto a essa madorra
pelos corredores silenciosos do meu pensamento.
A tarde me fazia criança
( ir)refletida nesse universo
onde caminha a minha humanidade
onde aporta a calmaria intensa desta casa.
Aqui vozes não se tocam.
São um logro.
Então, farejo como ele
uma noite tão igual por dentro
ao som e aos gestos de uma saudade sem limite.
Resisto.
Às vezes o pensamento pára.
Sou como esse animal lambendo as patas:
abro os braços em toda a extensão do espaço
recolho nas mãos a cor da noite...
Aquieto-me.

Texto e foto por Claude Bloc

Indulgentemente
- Claude Bloc -
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Preciso indulgentemente escrever
pensar, calar, escrever
encontrar palavras
de dentro de um parêntese
de dentro de uma história
escrever, enfim, neste pedaço de liberdade
que toma conta de mim.

Quero escrever sofregamente
esconder minha alma em versos livres
adormecer algum sonho
e acordar de manhã.

Quero escrever
os restos dos meus pensamentos
lampejos do que almejo
clarões dentro da memória
que a inspiração alinhava
num poema incolor.

Quero escrever
palavras que não alcanço
palavras que não esqueço
Poemas desordenados
Para não me entristecer...

Por isso escrevo
Versos livres, versos tortos
na rua, olhando a lua
nas tardes de agonia...

Assim poetiso a ausência
ou simplesmente me calo
a verdade pode ser dita
por não me caber mais em mim...

Imagem e texto por Claude Bloc
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Camocim
- Por Claude Bloc -
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Camocim
Como assim?
Minha vida cigana
me leva aqui e ali
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aquém e além
e cá estou
nesse meio
alheio


abalizando,
avaliando,
analisando...
sol a sol
em Camocim
como se fosse de aço
mas cheia de cansaço...


Oito horas a prumo
aprumo o passo e passo
afogando o cansaço
nesse grande abraço
do mês de janeiro


Claude Bloc

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Estanco

Não sei se paro ou se estanco
na beira de praia,
olhando as ondas
descanso ?


essa ansiedade permanece
quando me alongo
num dia branco.

A maresia me consome
me (des)compenso
nova vida, nova medida
de tempo-espaço.


O mar azul, o meio azul,
redemoinho
o torvelinho, o (contra)passo.
No rodopio das ondas
em (des)compasso
de novo estanco
descanso
meu sentimento.


Texto e fotos por Claude Bloc

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Um sinal - Por Claude Bloc



Quando fores à minha terra
Deixa-me um sinal
quando quiseres.
Uma pedra, uma estrela uma palavra
um cheiro de jasmim , a primavera

Quando voltares
Conta-me rápido tua história
Fala-me sempre a conta exata
Conta-me tudo, num momento,
Cala teu sentimento...

Sei que retornas, conheço o tempo
Mas não me escondas teu destino
Que o caminho acharei a qualquer custo
Enxovalhado de saudade
E do meu pranto.

Será um tempo pressentido
entre o vácuo e o contorno dessa serra
Varrendo o mar, molhando o vento
abrindo velas do meu barco
em silêncio
no inevitável
porto da espera.

Texto e imagem por Claude Bloc

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Flores & Sementes

Durante a vida
fui colhendo flores
e sementes
Guardei as pétalas
para outros verões.
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As sementes
foram meu equilíbrio
para a amizade
o amor
a felicidade
.
Semeei essas sementes,
joguei-as aos punhados
Até que encontrassem
a terra arada
para germinar.
.
Reguei com sorrisos,
essas amizades,
Como se fossem flores.
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Texto e fotos por Claude Bloc
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domingo, 11 de outubro de 2009

O Sono

O sono é um traço,
é um passo,
é um ponto,

Não sei se eu disfarço
o meu passo
ou se o desfaço
e pronto.

Nada sei desse abraço,
dessa noite,
desse encanto.

Tudo mais é suave,
o sono é manso
e do passo ao traço
eu descanso.
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Texto por Claude Bloc
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Isso & Aquilo

Todo dia é dia
De José e de Maria

Entre o sono e a vigília
Mora o sonho, a alegria

A vida tece seu fio
E entre isso ou aquilo
Vai rolando o desafio
Feito as águas de um rio

não deixarei pra amanhã
minha fome, meu fastio
Entre as varandas da noite
Nem no sereno macio

Não posso mais me esquecer
Nem do calor, nem do frio
Do olhar inquisidor
Desse silêncio vazio
.
Vou vivendo, vou vivendo
Sem mais isso ou aquilo.


Breve histórico:

Fui à cozinha ao chegar do trabalho, noite passada. Estava só em casa. Alguns objetos de repente me chamaram a atenção. Me instigaram. Peguei a câmera. Fiz fotografias. Não usei flash. A qualidade fica comprometida, claro. Mas, consegui fazer umas "telas" com o famigerado PhotoShop. Carreguei nos efeitos, mas o que é que tem? Gostei da brincadeira. Partilho com vocês.
>
Texto e imagens por Claude Bloc
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Engrenagens


A cortina se fecha em outra história.
Tudo o que resta sou eu
e minhas memórias.
Caminho entre engrenagens
tempo dividido
quando tudo parece unificado novamente
e o mundo não é mais o mesmo...
Ainda assim, continuarei procurando,
pelo sonho que ainda não tive
pelo sol que nunca houve
Ainda que não haja mais tempo
nem espaço.

Texto por Claude Bloc
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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Águas Nascentes


O que há por trás dessas águas? Perguntava-se o menino olhando com curiosidade para a nascente. Olhava para aquelas águas desconfiado com os olhos mais abertos e menos cotidianos. Olhos açucarados tentando enxergar as nervuras do chão através da lenta e silenciosa correnteza. Observava aquela água minando das pedras, pelas brechas, pelos vãos. Eram as nascentes da Serra que brotavam do chão como numa mágica...

Sempre tivera a curiosidade de ver o que havia lá dentro daquele mundo transparente das águas. Mas sonhava além. Peixes, areias claras arrastadas pelo aluvião. Enxurradas no tempo das chuvas. Tudo num ciclo sem fim de finais e recomeços.

Morava pelas redondezas, em outras encostas, perto das águas. Da janela via as subidas e descidas da serra e o infinito azul do céu... E a água ia jorrando espumas, cuspindo peixinhos. Vez por outra o menino punha seus pés nas águas para sentir-lhe a frescura enquanto o sol seguia pelo arco celeste curtindo-lhe a pele.

Por um longo tempo ficava absorto. Ouvia o canto sutil das águas. A música que viajava em seus ouvidos. Queria apenas continuar molhando seus pés na nascente, sentindo seu cheiro molhando a terra, o mormaço ardendo em suas narinas. Queria só ficar olhando os minutos passarem além da nascente, do sol, da coreografia das águas.

Sabia que não podia viver longe da serra, nem daquelas águas cristalinas. As águas eram seu destino. Olhava para a serra ofegante e para as águas frescas e queria dar-lhes vida em seus sonhos.

E dentro de si, no encalço da atitude mais silenciosa queria ouvir a voz do universo naquelas águas benditas. Águas da nascente.

Texto e formatação da imagem por Claude Bloc

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Seixos & Conchas


Meu sonho agarra-se na areia
virando conchas
virando seixos

Embalo pela areia quente
sonhos salgados
de maresia


Sopro dentro dessas conchas
os meus segredos
virando espuma
virando areia



E remexendo meus sentidos
ouço a saudade
e as marés
virando som
virando sonho
virando mar.


Texto e fotos de Claude Bloc

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Quando digo que te amo - Roberto Carlos


letras de músicas no letras.com.br

Setembro - Ensaio Fotográfico

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Poderia ser apenas
mais um dia, em setembro,
o que por si só é encanto.
.
Poderia ser apenas
mais um dia de espera
de flores ou de espanto.
Sim, poderia, mas no entanto
a roda da vida gira
e o vento descose o tempo
e o tempo trará depois
muitos outros meses lentos
até chegar outro tempo
e outro mês de setembro.

Adicionar imagem
Eu sei que te encontrarei
Um dia, mas não sei quando
quando vierem as flores
novos dias, novas cores,

quando minh’ alma atenta,
aos teus pequenos sinais
mostrar-me em sua essência,
tua falta, minha ausência

>

pois nem sei mais como posso
guardar alguma esperança
e onde esconder a saudade

Pra converter o teu riso
no fio de minha história
Apagando esse frio
o vazio
o silêncio
em mais um mês de setembro

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Fotos e texto por Claude Bloc

(também em homenagem ao "dia da florista")

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ruas de Outono - com Gal Costa


Ruas De Outono

(Gal Costa)

Nas ruas de outono, os meus passos vão ficar
E todo abandono que eu sentia, vai passar
As folhas pelo chão que um dia o vento vai levar
Meus olhos só verão que tudo poderá mudar
Eu voltei por entre as flores da estrada
Pra dizer que sem você não há mais nada
Quero ter você bem mais que perto
Com você eu sinto o céu aberto
Daria pra escrever um livro, se eu fosse contar
Tudo que passei antes de te encontrar
Pego sua mão e peço pra me escutar
Seu olhar me diz que você quer me acompanhar
Eu voltei por entre as flores da estrada
Pra dizer que sem você não há mais nada...

cortesia de http://www.letras.com.br/

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Quebrar-se em mil...


Meus ouvidos captavam sinais de vida pelos vãos da memória. "Você pega o trem azul", lembra da música? Lembrava ou não? Também não sei de onde ouvia o apito: "Estação do Cratooo". Foi quando uma menina encabulada desceu da plataforma e me cumprimentou. “O que você tem feito de você?”, perguntou sem muito interesse pela resposta. Acho que eu estava dormindo, ou sonhando, sei lá.

Minhas lembranças sempre me traziam, nessa época, esses pedaços de tempo costurados num presente lerdo de silêncios. Nostalgia, então, era meu remédio e minha doença. Estava sempre às voltas com esses fragmentos de memória misturados em minha alma, complacentemente. Costumava perder-me nas teias de um passado sedoso e macio e não queria mais aceitar essa vida de tantas dores e desalento. E por muitas e muitas vezes, tentei exilar-me na solidão e na obscuridade. Para não errar mais o caminho, para poder um dia voar e poder voltar a sonhar.

Foi difícil sair desse marasmo, mas agora meus silêncios não são mais vazios, nem precisam de passado para se abastecerem de sorrisos e de alegrias. Normal isso, acredito. Eu aí ansiava pela paz e mais que tudo, queria de volta a vida em minhas mãos, pois que eu já houvera percorrido um longo calvário.

Hoje, vivo remexendo na minha bolsa buscando trecos.O passado não fica guardado lá dentro, mas sei que sempre trago naquela bagunça algumas passagens de ida e de volta. Como disse certa vez a uma amiga querida, “basta ter a passagem de volta". - Tem razão, minha amiga! E depois disso, passei a voltar ao Crato contumazmente. Mas antes, passei por muitas, até chegar ao ponto em que estou.

Há alguns anos, e por muitas vezes, quando ia ao Crato, eu procurava em vão um rosto amigo que me acompanhasse por tantas badalações e brincadeiras, mas não achava. Não sabia mais onde as pessoas estavam e, tal como muita gente que conheço, sentia-me quase uma “estranha no ninho”, quando perambulava por aquelas ruas que ainda guardavam as marcas dos meus passos. Creio que, em parte, a culpa também era minha, pois vivia sob a proteção de escudos, presa numa redoma de inconformações e angústias.

Até que um dia, consegui redescobrir e reencontrar a linha azul da Serra do Araripe. E quando falo na Serra falo na gente, nos amigos, na vida. O Crato sempre foi e sempre é o expoente máximo de esperanças e de alegrias que eu possa ter ... e eu o havia perdido durante tanto tempo, por muitos desses acasos que se agregam na gente compulsoriamente, além da nossa vontade.

Imagens de um outro dia, de uma outra vida ou de um outro pensamento, passaram a voar livres diante de mim. Caminhei muito, sem mais tédio, sem mais nada que me incomodasse. Guardei as lembranças num lugar seguro. Vez por outra elas me escapolem, mas ao vê-las, passo a lustrá-las para que não mais escapem. Guardo também, e ainda, aquele velho Hermann Hesse perdido em alguma mochila rota. Lá está um lírio envelhecido pelo tempo com inscrições quase rupestres. Também ouço alguma música ao fundo da noite. Péssima, diga-se de passagem. Mas deixei quietos meus fantasmas, lá mesmo onde estavam. Havia perdido, por um tempo, o mínimo senso de humor. Mas cá estou agora neste novo espaço. Sobrevivente de um marasmo que não mais existe.

Foi por isso e por tudo o mais, que me pus a escrever este texto. Assim como quem exorciza uma fatia de tempo. Sentei-me num daqueles banquinhos para fora da redoma antiga. Meus pensamentos estavam quietos e mornos. Tirei então um papel da velha mochila e meus dedos buscaram uma caneta. Rascunhei despretenciosamente. Precisava de sílabas mais do que de pretensões. Perdi-me, aí, nos prazeres de escrever enquanto mandava aos céus minhas saudades. Poli essa solidão programada, e fui arrancada de meu planejamento por um sorriso confuso e sincero, por aquela animação pueril que só você provoca. E lá fiquei com todos os meus "eus" e todos os "seus".
“Feliz é quem sabe quebrar-se em mil e manter-se único.”

Texto e foto por Claude Bloc

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Crônica para você - Por Claude Bloc

Quando somos jovens achamos muitas vezes que tudo é tão difícil! Primeiro vem o sonho. Nunca sabemos se aos poucos conseguiremos realizá-lo, mas por alguma razão desconhecida continuamos sonhando.
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A seguir, vem uma série de artifícios e processos, como, por exemplo, o questionamento dos outros sobre nossa escolha sobre o futuro, vem a expectativa dos nossos pais, e principalmente, aquela perguntinha martelando na nossa cabeça: “será que vou conseguir”? Não sabemos, portanto, a esta altura, que esta será uma pergunta constante durante o restante de nossa vida.
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Aí, então, começam as renúncias, que se estendem pela vida a fora: desde festas e passeios até falta de atenção à família, aos amigos, à/ao namorada/o…mas sempre há motivos de renúncia. (Ou não!). No final das contas todos nós podemos escolher, e é justamente quando o cansaço bate, quando a mente está já tão cheia de informações e de conhecimentos, quando não conseguimos aprender mais nada (mas não largamos o livro), quando todos reclamam que estamos estressados... sim, é nesses momentos que alguma escolha é feita.
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Poderíamos até ter seguido pelo caminho mais fácil, ter curtido toda nossa juventude intensamente, ter vivido para nós mesmos e pro mundo. Mas não, seguimos sonhando... Obviamente o tempo passa e com ele tudo segue passando. Mas a vida continua, e acabamos deixando de lado muitas vezes as pessoas que mais amamos. E agora? Pomo-nos à prova. Tentamos decidir nosso destino ou seremos jogados na jaula novamente junto ao nosso passado e às nossas lembranças.
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Depois de muitas intempéries, acabamos acreditando que estamos livres e que nos havíamos livrado das noites em claro, das tempestades, dos enganos nossos de cada dia. A ausência dos amigos aumenta. Tentamos modificar toda nossa vida. Mudamos de cidade, moramos com pessoas totalmente desconhecidas, temos que aprender a nos virar de todo jeito, porque é assim que aprendemos a crescer.
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De repente percebemos, então, que não tem mais jeito, que nossa adolescência passou e que a queremos de volta, mas não podemos mais tê-la, porque não dá mais tempo agarrá-la. Nossos amigos agora são outros; e daí, nós também não entendemos por que eles não são como os de antigamente.
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É aí que passamos a ter medo, e este acaba se tornando nosso maior amigo. Temos medo de fracassar, de ter chegado tão longe, mas sem saber direito para onde ir. Sentimos vontade de chorar, mas aí já somos quase adultos, e temos que ser fortes... Afinal, não foi assim que nos disseram? Que devemos ser fortes sempre? Que o resto é manha? Mas temos esse direito?

É aí que nos deparamos com o futuro. Nossos últimos anos foram de coragem e de batalhas. Batalhas estas que nunca acabam e vão ficando cada vez mais difíceis de vencer. Surgem as perguntas: Onde estão meus pais? Onde estão meus amigos? Pra onde estou indo? São tantas as dúvidas… Deveríamos ter um dicionário para responder a essas questões tão esdrúxulas. Porque ninguém nos diz o que vamos encontrar pela frente ou como isto ou aquilo vai ser. Mas... mesmo assim continuamos. .

Então passamos a refletir sobre nossos sonhos, sobretudo sobre aqueles que ainda não realizamos e que não somos capazes de esquecer. Diga-me, fale-me: a esta altura você seria capaz de deixar isso fugir do seu coração? .

Agora nossa vida é esta. Apesar de ela ser repleta de insegurança, é, no entanto, e ainda, cheia de sonhos. E essa nossa vida passou agora a ser também a vida de outras pessoas. Amamos. E amamos tanto tudo isso! Amamos encontrar as mesmas pessoas todos os dias, amamos também porque não temos tempo para nós mesmos, amamos, amamos, amamos… amamos de um jeito que não valeria mais a pena viver se isso tudo não existisse. ..

E por mais que não queiramos aceitar, e por incrível que pareça, nos encontramos hoje justamente naquilo que nos fez sentir tantas vezes perdidos. Mas é assim. Foi uma escolha nossa e, a cada tempo procuramos fazer a melhor escolha que possamos imaginar. Eu hoje escolhi vocês, meus amigos de hoje e de sempre.
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Foto 1: Atrás: Dominique, Pedro Silvino e Claude // no meio: Roberto e Ricardo Saraiva e Jean-Pierre (primo) // na frente: Bertrand e Jacques (irmãos)
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Foto 2: da esquerda para a direita = 1. (não lembro do nome) 2. Gracinha Pinheiro C. - 3. A cabeça de Vanda - 4. Ismênia Braga Brilhante - 5. Glória Pinheiro C. - 6. sentada = eu - 7. em pé = Ana Ricarda Ribeiro
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Foto 3: Turma do Pimenta: Fátima Lacerda (com a irmã mais nova), Cristina (de Seu Luiz Gonzaga) abraçando Iza (minha irmã de criação), Eduardo, Glória e Zé Junior (Lacerda), Carlinhos (na frente de Zé Junior), Rita de Cássia (falecida há pouco tempo), Ana Ricarda (na frente de Rita), Primo de Gracinha e Gracinha Pinheiro, Claude (atrás) , Marcelo, e ajoelhado Renato Pinheiro com Meirinha nas costas.
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Texto e fotos por Claude Bloc
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terça-feira, 21 de julho de 2009