quarta-feira, 24 de junho de 2009

Estou sempre voltando ao Crato - Por Claude Bloc


Há momentos em que a emoção não consegue sem barrada nem velada. Pelo contrário, nos sentimos embebidos/as dela, encharcados/as da mais linda amizade que se pode ter. A amizade que nos chega ás raízes da vida e nos joga de volta aos longínquos laços deste sentimento mais que precioso.
Agradeço, portanto, a José do Vale por este texto a mim dedicado, quando mais uma data de meu curso de vida em mim se completa.
Escolhi o Crato para estar nessa data entre amigos. Para comemorar a vida. E para agradecer o carinho que todos têm me dedicado apenas com minha presença, pois que as palavras seriam ínfimas e insuficientes diante do que sinto e nunca conseguiriam expressar o “bastante”.
Então, me aguardem... Estou chegando. Estou sempre voltando ao Crato

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Dentre meus muitos gostares existem alguns que cultivo, que vou dilapidando e polindo, que vou cravejando com preciosas prendas. Nesta constante metamorfose, vou produzindo em mim uma eterna reforma, me tornando, nesse enredo, um verdadeiro universo em ebulição constante. Nesse universo estão meus limites (físicos ou não) e estão plantadas minhas raízes, meus melhores afetos, minhas boas lembranças. Fico então delimitada: bem ao centro está minha perspectiva de vida, mirando para o Sul do Ceará, ao norte dos meus sonhos perenes.

O Crato é sim, queiram ou não, singular nesses muitos aspectos que me aprazem, dentre os meus muitos gostares. É singular em arte, em costumes, em humor, em vida. Singular em verso ou prosa, muita prosa! É peculiar em sua maneira de ser cidade. Em seu modo de ser um recanto sempre lembrado, mesmo pelas ovelhas desgarradas pela imposição da vida. E, como já citei muitas vezes, o Crato tem um ímã do qual a gente da terra não consegue se desgrudar, pois que, quem ama o Crato não o ama superficialmente, mas o tem bem no centro da alma, como uma essência indelével e inolvidável.

Quem ama o Crato como eu, é sensível aos espinhos de suas trilhas e padece com as farpas estranhas à doçura que lhe é peculiar. O Crato é doce. Tem o açúcar das canas e dos canaviais, tem o mel no coração das pessoas que circulam pelas linhas do seu destino. Tem o tijolo de buriti que lhe serve de pilar e que assanha a verve dos mil poetas que (de)cantam a “flor da terra do sol”: “Sou teu filho e ao teu calor, amei, sonhei, vivi”.

O Crato é então esta obra de arte encravada bem no centro do meu coração (e no de todos os cratenses). Nem ao Norte, nem ao Sul. E me sinto centrada neste amor tranqüilo que equilibra meus humores. O Crato está na vanguarda, além dos limites dos pobres de espírito. O Crato é então “o meio e o curso que faz o curso se mover”. Seu povo é generoso e bom.
Mas (como bem diz José do Vale) poderíamos chamar o Crato de mundo e nele evocar a vida. Comemorar a vida em meio aos amigos, pois que nesta dimensão, em meio a eles, serei parte desse inquestionável e amado universo.

Texto e imagem de Claude Bloc

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Flor de Laranjeira - Por Claude Bloc



Pareces nem me reconhecer quando entro. “Cheguei”, e é tudo quanto consegues dizer porque a emoção te prende a voz. Prendes-me também num abraço interminável... Permaneço impassível. Não consigo pensar, mover-me, retribuir teu gesto desolado e amarrotado de saudade. Sempre quis te encontrar, simples assim. Sempre quis. Te busquei na memória tantas vezes e outras tantas colhi teu sorriso (quando perdia as esperanças) nos escritos do meu diário.

Lá tu sempre estavas. Belo e amigável como nas horas em que te vinculei como fogo indelével às minhas lembranças. Enfim, chegaste. E ali permanecemos, juntos, envoltos no aroma de flor de laranjeira que, do quintal, invadia a casa. Os pardais nos tocaiavam sem entender a novidade.

O chão, então, pareceu cobrir-se de um tapete perfumado de flor de laranjeira. Passeei sobre ele. Os ramos das laranjeiras estavam agitados, agitados os sentimentos que me perpassavam. Lembro-me de tudo. De minhas vãs tentativas de te encontrar. Repeti tantas vezes o teu nome, entrelacei-o ao meu tentando sentir tua presença. Mas o tempo e a vida nos afastaram. E tu não conseguiste separar as coisas no seu devido tempo. Não soubeste acolher minhas palavras de desamparo, nem te esquivar dessa vida que levas encerrado nos espaços vazios de tua alma.

E no entanto cá estou, na penumbra à tua sombra. Desce sobre mim uma chuva de pétalas. Flor de laranjeira. As árvores oferecem os frutos carnudos aos nossos olhos...alguns nos ramos mais altos. Não consigo alcançá-los. Então pousas na minha página em branco. E novamente deixas escrito mais um verso. Tu e eu somos um só, a poesia, o poema.


Por Claude Bloc

Reverso do Verso - Por Claude Bloc


Se eu pudesse
Seria o reverso
De teu verso
Pois que
Não sei por quê
As palavras se fecharam em tua boca.
As tuas palavras
O teu verso esquecido
No meu caminho em branco.

Por Claude Bloc

EU ESCREVI UM POEMA TRISTE - Mário Quintana


Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Mario Quintana - A Cor do Invisível

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A Metáfora


Sábado chuvoso. Não saberia dizer adeus de novo. Os traços postos no papel repetiam seus gestos impacientes. Mais uma vez um monólogo com aquele tempo preso pelos recantos da casa. De fato gritava em seu silêncio. A palavra lhe vinha primitiva e limpa percorrendo-lhe a memória, ventando através da garganta. Sua fragilidade no momento desalinhava os traços precisos de sua boca. Precisava conciliar as idéias em sua mente.
Levantou-se se espreguiçando. Afastou-se dali por alguns segundos, reteve o passo e voltou-se mirando o centro dos olhos naquela foto. Contemplou por alguns instantes a emoção ali retida naquela expressão que parecia perscrutá-la. Jamais deixaria de lamentar aqueles falsos adeuses que não passavam de súplica por permanência. Era seu jeito de falar sobre a eternidade do que sentia.
Estava ali a foto. Estranhamente não imaginou deparar-se com ela depois de tanto tempo. Sentou-se à beira da cama. Revirou a gaveta cumprimentando cada foto ali guardada. Queria manter-se à distância da emoção, porém nada parecia ter-se alterado naquele lugar. Os folhetos pardos, tocos de lápis, anotações da avó. Tudo ali perpetuado remexendo com suas lembranças.
Em vão, procurou a mão invisível do tempo nos quatro cantos do quarto. Ela mesma, ainda a menina inadequada de antes. Só então percebeu que usava um vestidinho amarelo. Parecia ter-se vestido para um encontro com ele. Com aquele olhar retratado na foto.
Se permanecesse ali, imóvel e ausente. Se apenas não se movesse nem se fizesse notar... Mas era evidente o quanto estava viva. No fundo de seus pensamentos estava viva embora estranha a tudo ali, sobretudo a si mesma.
Sentou-se na cama. Apalpou a maciez do lençol buscando através do tato tornar o momento mais concreto. Instintivamente tomou ao colo o velho violão abandonado num canto do armário. As cordas estavam quase rotas, mas o som suave das poucas notas que dedilhava, pareciam-lhe um hino. Hino aos seus dias felizes. Hino ao seu sorriso triste do momento. Não sofria. Era delicada a sensação de saudade que sentia de cada pedacinho daquele ambiente.Mas nada tão forte como a veemência das palavras que escrevia.
Sentiu-se de repente um pássaro preso, atônito diante das intempéries por que passara até chegar a esse limiar de paz e sossego. Largou o violão. Tomou de volta um toco de lápis e sua agenda. Escrevia. Suas letras tortuosas passeavam por sobre a folha em branco lembrando as curvas da estada por onde andara até chegar ali. Curvas sem história, sem nada. Escrevia compulsivamente. Dava forma e cor aos olhos graúdos do seu personagem. Tudo tinha essência e brilho ali. Esses olhos deveriam ser enigmáticos, deveriam sugerir um mundo inteiro de mistério sem mergulhar no vazio do tempo. As lembranças, essas sim deveriam ser soberanas e conclusivas.
Suspendeu a escrita. Era difícil estar ali sem relembrar fatos, pessoas e aquele olhar grudado nos seus sentidos. Levantou-se num ímpeto. Mediu seus passos com os olhos enquanto se dirigia para o terraço. Seus passos eram curtos e obtusos como sua mente naquele momento.
Sentou-se no velho tamborete perto do parapeito. A silhueta da serra se delineava entre as copas das árvores, quase tocável, apesar da distância. Seu olhar se perdeu no vale e nas cores pardacentas do dia que declinava. Seu silêncio consumia as encostas da serra e a melancolia da tarde. Estava ali o olhar. A metáfora de sua vida.
Texto e foto por Claude Bloc

terça-feira, 2 de junho de 2009

Só há poesia...


... Ei, tristeza,não sei quem te chamou. Portanto, te peço, arreda o pé, vai embora... Já te releguei ao passado e não quero mais cruzar o teu caminho!
... Pois é, dona tristeza, visitei lugares de minha infância lá pelas bandas do Crato e vi que a velha casa onde morei quando criança ainda estava incólume, austera, mas entristecida e abandonada.
... Eu mesma a larguei por tanto tempo que nem suportava mais toda a saudade acumulada em meus guardados. Percebi, também nessa visita, que, depois desse degredo, já não existem mais os pés de cajarana que reguei, nem as duas goiabeiras em cuja sombra me assentei, a cobiçar os frutos nos galhos mais altos...
... Só sei que cheguei lá devagarzinho e fiquei ali, diante dessas ausências sem perceber com clareza que estar com você, tristeza, é o mesmo que estar diante de um espaço vazio. Saber que, cedo ou tarde, tudo o que está presente ficará ausente. É isso!
... Você é traiçoeira e se expande... e vai testemunhando esse mistério da despedida gravado em nossa própria carne. Essas lembranças que vamos carregando e esse ar de despedida colocado em tudo o que fazemos e deixamos pra trás...
... Você, tristeza, é essa ausência que demora, ausência que devora: o espaço entre o belo e o efêmero de onde nasce a poesia. E assim, nessa amálgama os poetas vão colocando suas palavras sobre o vazio. Não um vazio qualquer, mas um vazio que é um "pedaço arrancado de mim”. Um exercício de saudade; de tornar de novo presente, um passado que já se foi.
... Então penso em Drummond que afirmava não lastimar o espaço vazio no seu texto “Ausência": "por muito tempo achei que ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não o lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba de mim..."
... Portanto, dona tristeza, procure outras paragens, pois no vazio de minhas noites só há poesia...
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Texto e foto por Claude Bloc

sábado, 30 de maio de 2009

Marés


Todos estes são os meus dias
Dia da serra, dia dos mares
Hoje me banho nas águas
Dos mares que me embalaram
Desde os meus primeiros dias.
Mares revoltos, mares rebeldes
Mas hoje em calmaria
Mares de longe, mares abertos
Que me trazem a revelia
Teu nome em meus segredos.

A maré me enche e vaza
Até onde a vista alcança
E fica na praia o sonho
Em meu nome, em teu nome
Por dias e dias afora.
Teu nome sempre está lá
Gravado na mesma rocha
E as ondas vêm e insistem
Em trazer o sonho pra mim
Na premência dos meus dias.


Claude

Ruídos de água

Enquanto chega o domingo, uma conversa de sábado...
 E onde anda a poesia?

A quem devo amar neste momento ?
O que devo olhar, além do sonho e do silêncio?
A que devo amar, senhor de todos os mares?
E o que devo escutar além do ruído dessas águas?
A quem devo mostrar o amor que tenho guardado?
A quem devo obediência
..................... quando já vivi três quartos do tempo?
Onde vou deixar meus versos e prosas
Que se estampam em contrapasso
...................... no tempo?
A quem, pergunto eu...
A quem devo amar neste momento de espera?

Texto e foto de Claude Bloc

sábado, 23 de maio de 2009

Coisas de sábado...


.... Há coisas que nos vêm assim devagarzinho, meio (in)esperadas, mágicas ou totalmente esdrúxulas. São coisas de fato?
.... Coisas que nos inquietam, que nos atiçam, que nos trazem os sabores da noite, ou os ruídos surdos da madrugada, como o palpitar de uma lembrança, ou quem sabe, a sombra de um sonho que gostamos de manter sob as pálpebras, sem qualquer pudor. Que cores têm essas coisas?
.... Há coisas que nem revelamos. Que guardamos em nosso relicário secreto. Coisas que nos trazem de volta rostos que não podemos esquecer. Coisas que representam o presente ou o passado, e tudo o que nos é caro. São as coisas que nos acontecem no momento exato em nos deparamos com a verdade e entendemos que, no mais profundo de nós mesmos está sempre essa criança indomável que nos interpela e que nos impele às “coisas (im)possíveis”... aos trocadilhos, à liberdade (in)cômoda, ao discorrer de uma longa história (quase) sem sentido, mas tão sentida.
.... Há coisas que nos fazem tropeçar e, nos tropeços, nos fazem andar pra frente. Somos então, nesse momento, mera e simplesmente seres errantes nessa coisa que se chama vida, procurando acertar o nosso passo e nosso (p)rumo.Coisas da vida!
.... Há coisas – pois que não há outro nome para isto - que nos atropelam e, paradoxalmente, nos envolvem com o mel da doçura... Coisas, coisas tantas. Coisas que queremos manter em nosso pensamento, coisas que, de tão simples são tão intensas. Coisas que nos aquecem a alma. Coisas lindas, que não queremos findas. Coisas que tecem as nossas emoções, e que nos fazem felizes. Coisas bobas?
.... quais são essas coisas?
.... Digo: coisas que sempre prezamos, coisas de que ardentemente precisamos: o sentimento mais nobre, o sentimento mais leve...
.... Coisas que nos engrandecem e que se cristalizam no âmago do nosso ser. Como um sentimento que gruda e nos faz exultar.
.... E aí nos perdemos para nos encontrarmos na essência dessas coisas, e essa essência não cabe dentro das próprias coisas... Tentar capturar essa essência seria um pouco como tentar guardar uma gaveta dentro duma outra gaveta rigorosamente igual. De qualquer forma, quem é que disse que uma gaveta é para guardar coisas? Por que é que não podemos ter uma gaveta vazia reservada para a essência daquilo que julgamos querer ou ter?
....E de onde nos vêm essas coisas que tanto queremos e não sabemos explicar?

Por Claude Bloc

domingo, 10 de maio de 2009

Mais uma vez, saudade!

Casa da Serra Verde - Pintura a óleo de Claude Bloc

...... Eis-me em silêncio, numa dessas fraturas de um tempo de aceitação. Aceito essa saudade que me chega em meio aos sargaços da idade...Essa saudade que é fruto da minha lembrança, e que vai aos poucos embaraçando-se em tantas e tantas fugas, cicatrizes, contrapontos... Saudade que me enlaça nesse imenso azul me abordando sutilmente, abrindo as comportas dos sentimentos e o tropel silencioso das horas insólitas...

...... A saudade não me causa fadiga: ela me acerta e me completa. Com o refluir do tempo, ela acaba sendo para mim a súmula de tudo para se tornar a essência do meu canto.

...... A saudade não subjaz ao simples acaso de um verso. Ela faz pulsar a arte nos desconcertos da poesia...

...... A saudade, a minha saudade, inscreve-se no silêncio, como uma órbita revelada em metáforas. Rompe a crosta que a separa do encantamento e vai concentrar-se nos vazios da alma...

 ...... A saudade do Crato é outra história. A minha!

Por Claude Bloc

sábado, 25 de abril de 2009

Brilho...

Todo os meus poemas começam de manhã, com o sol.
Mesmo que as palavras não estejam à vista,
O poema será, então, meu céu de chuva
explicando a luz.
Durante o dia, morará inteiro
num espaço mais aberto
de ar claro e luminoso,
nas tardes lisas e eternas...
Então, emergirá, mais uma vez,
Da noite, do silêncio,
como um cais seguro.

Pela rua
sua passagem se confundirá
Com os assovios do vento
Com o rumor dos mares
E o encontrarei em areias claras
onde possa se estender ao sol,
no relicário dos meu sonhos.

Meu poema será
uma mão aberta e,
na sua palma, estará minha esperança.
...e se arrastará com o dia
e se meterá pelas copas das árvores,
cantará com os pássaros e correrá com os riachos...

Meu poema contará como tudo é feito
menos ele próprio...
começará por um acaso cinzento,
como esta manhã de abril
e acabará, também por acaso,
quando o sol (em meus olhos) brilhar...
Meu poema me levará no tempo
E não passarei sozinha...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

De pernas pro ar...

...... Se hoje nada mais der certo pego as minhas coisas jogo numa mala e me mando pro Crato. Se nada mais der certo saio por aí pisando nas flores caídas pela rua enquanto finjo que não vejo os olhares atravessados do outro lado da rua, perscrutando meus movimentos. Se nada mais der certo compro um guaraná, bem gelado, e nada de papo.
...... Se nada mais der certo escrevo um poema, um dilema e me perco na obscuridade do silêncio. Se nada mais der certo vou em busca dos amigos. Vendo meus anéis, brincos e colares e compro uma passagem – pra onde, não sei. Se nada mais der certo componho uma música para alguém... e canto em falsete pra espantar a tristeza. Se nada mais der certo ligo a TV e finjo que assisto às novelas. Mesmo se ninguém gostar do meu senso de humor, sei que farei um bocado de gente sorrir da minha cara ridícula na tela – eu na tela?
...... Se nada mais der certo vou saber que não devia nunca ter emprestado aquele livro para minhas colegas. Se nada mais der certo escrevo mensagens para minha lista de amigos e como ninguém me responderá, nunca saberei se leram ou o que pensaram de meus textos. Se nada mais der certo ouço meus poucos CDs e ainda choro recordando as músicas do Ray Connif. Se nada mais der certo vou-me embora de ônibus e faço cara feia pro menino que ficar me olhando com cara de sapeca.
...... Se nada mais der certo bato à porta daquele bom amigo e negocio uma xícara de café por um antigo retrato. Se nada mais der certo desisto de dar certo e lavo as mãos...
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Por Claude Bloc

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Voar....


Não quero ser pássaro,
quero apenas essas asas
pra voar em teu dorso
pois estou cansada.
Quero abastecer-me,
Seguir o sonho
Mesmo sabendo os riscos...

Quero ser a passageira
Nesse vôo ardente
Nesse mistério
Que me atiça.
Quero sobrevoar
As trilhas em que caminhas
Me fortalecer, renascendo
A cada suspiro...

Quero desabrochar
Em flor-mulher
Pois rodei o mundo
E fui tão longe
sem te encontrar.

Quero,
Até que minhas asas renasçam
E renasçam as palavras proferidas no silêncio,
As palavras mais sentidas e mais doces
Apenas voar...
E beber o sereno das folhas mais altas
Repartir com o vento esse encantamento
E apenas voar
Como se o céu fosse teu chão.

Claude

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Deuses da Chuva

Chove! ... e os deuses da chuva , do céu estão distantes. Na Terra, confrontam-se os heróis nessa alegoria profética do tempo. A figura do inverno desfila personificada nas enchentes, nos aluviões, materializada na avidez das águas, nas obsessões da estação...

Então, chove! Fora e dentro de mim. A chuva é poesia nesta hora. Mescla gêneros e experiência na prosa, mas não pode viver confinada ao limite das estações nem ao domínio das palavras.

A chuva é fiel. Ao tempo em que discorre pela vida a sua passagem. Ao tempo em que deixa escorrer seu pranto e seu agravo...

A chuva é a tradução deste poema. Celebra o universo! ... e leva, no verso de seu dorso, as linhas do seu estro.

Por Claude Bloc

terça-feira, 14 de abril de 2009

Teu vôo


Teu vôo é incansável
Tua plumagem raspa meus sonhos
Num alento abrasado

Estás no pólen
Que se esparge das flores,
No delírio e na essência
Que a noite gorjeia.

Ainda ouço
O tom da voz da madrugada
Nas vestes dos sonhos
Que não tive
Ou que deixei fugir por covardia.

Quero redimir-me
Deitar-me à sombra de teu verso
À luz da tua prosa...
Em qualquer tempo.

Claude

Chuva

........ A chuva de hoje proporcionou-me um curioso diálogo com o tempo. Lembrei-me da Rua Irineu Pinheiro nos muitos invernos que atravessei no Crato. Manhãs caudalosas. A rua inundada de uma ponta a outra, até as calçadas, causando transtorno aos incautos estudantes matutinos. Nem as famigeradas galochas eram suficientes para conter a “fúria” das águas que desciam levando as pedras rua abaixo. Nem os sapatos “colegiais” impediam a alegria dos meninos que saiam em revoada de suas casas para a escola. Risos, risadas, gente encharcada, lama, choro... e muitas vezes o retorno de um ou outro, vítima da “guerra fria” da água barrenta...
........ Difícil esquecer também os dias infindáveis de brincadeiras pelas ruas, onde, depois da chuva, filetes de água, refletindo o céu nublado, acompanhavam o meio-fio, dobrando na esquina, em busca do Rio das Piabas...
........ A chuva apascentava os ânimos. As brincadeiras eram infinitamente alegres e provocavam a criatividade. Diques e açudes assoreavam as ruas e invadiam a passagem dos carros. Eu era mera personagem dessa história de chuvas? Descia pela rua pisoteando a água, remexendo os sonhos de algum príncipe escondido n’algum “castelo”. Menino que simplesmente me assistia passivamente passeando pela chuva, chacoalhando a água com os pés, espargindo sonhos por aí...
........ Foi assim, nesse diálogo com a chuva que comecei a escrever. Tentava nas palavras encontrar o cheiro da terra e os sons das águas lavando e levando as pedras do calçamento. A verdade era para mim como essa chuva. Procurava me encontrar em meio a esse rio de palavras todas que escorriam pela rua desfarelando os sonhos pela enxurrada. A chuva naquele tempo era também a expressão dissimulada do meu pensamento. Eu, mera criança, apreendia o mundo como se eu fora extraterrestre. Tinha dificuldade de escrever. As águas lavavam-me as idéias. Meus textos eram híbridos e insípidos...
........ Hoje, porém, a chuva e eu podemos andar de mãos dadas...

Por Claude Bloc

sábado, 11 de abril de 2009

Entre a noite e o dia


...... Gosto dessa eterna alternância entre a noite e o dia, entre a claridade e a escuridão. Gosto desse balanço, por entre pêndulos, desses pequenos rasgos de luz que cortam os céus à noite, gosto dessas poções de luz que (i)lustram meu ser durante o dia. E nesta guerra permanente, entre a luz e a sua ausência, deixo-me ficar inerte, nessa hora, no instante exato em que os nossos mundos se roçam pelo espaço. Mesmo que depois, partamos em direções opostas, rumo à claridade, fechados na saudade.

...... Gosto do eco da noite e da voz do dia. Gosto do silêncio que tocou a minha alma, para sempre.

...... Gosto de pensar e escrever à noite Alimento-me da quietude, me apraz!

...... Gosto da noite que explode como catarse, liberadora de todas as paixões, de todos os excessos reprimidos durante o dia. Gosto de ouvir meus próprios passos durante a madrugada, quando, em silêncio, pareço apenas querer testemunhar a solidão das esquinas e das calçadas.

...... Gosto de viver a força das marés noturnas e de banhar-me nessas ondas. Gosto da noite quando irrompem as primeiras claridades do dia.

...... E é assim que chega o dia e me povoa a casa e me invade o quarto, dividindo espaço no mundo da vigília.

Por: Claude Bloc

terça-feira, 7 de abril de 2009

Reflexos

...... Cabelos ao vento saltam na testa em cascata. Sorriso esboçado, mas eloqüente. Traços finos de lábios cor de jaspe. A pintura é natural como na tela ou no espelho... A tarde nublada dissimula a idade, esconde os vestígios da transição do tempo... O reflexo no espelho é (in)finito. Mostra tudo e mais nada dessa visão insubordinada do que de fato sou. Há sempre mais de mim. Ou menos, não sei bem.
...... Apago a expressão canhestra e desafiadora que me faz mergulhar na liquidez do meu ser. Preciso então molhar meu rosto, deixar o sonho escorrer, dar vida a essa vida dentro de mim. Fechar as pálpebras e deixar-me ir além das tinturas fisionômicas, nessa captura de mim mesma, transformada refletida.
...... Enxergo o que fui ontem, o que hoje sou. Passagens achatadas pelo tempo. Vejo-me menina e/ou mulher. Afoita ou intensa. Insegura nas mais vezes. E assim prossigo desenhando nessa tela os retratos de minh’alma misturados ao íntimo do meu ser.. Como uma impressão digital que marca a história de todos os meus reflexos...
...... Espelho-me nesse enigma que é a vida e em seus estilhaços percebo o olhar penetrante que me observa. E me vejo finita, findável nessa imagem congelada. Sou, então, o reflexo abstrato, o rascunho concreto no lume do espelho onde me encontro, no olhar refletido na memória... Enquanto cada instante é ( in)finito.
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Por Claude Bloc