terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O resto não importa
- Claude Bloc -
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As palavras escorregavam serenas e naturais. Voltei àquela casa e era como se eu a conhecesse há muito tempo - ou como se ela me conhecesse há mais tempo ainda. E nos conhecíamos de fato. Éramos quase um só corpo e matéria. Uma simbiose fundindo-se no tempo. Deve ter sido por isso que deixei que as horas se encostassem à margem do relógio. Fui ficando.  Não podia esquecer o motivo de ter ido lá. Eu, que tanto ansiava por aquele pedaço de tempo estendido ao longo dos anos, acenei para mim mesma e pensei:  vamos!
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Senti-me em casa novamente. Observei os pequenos trejeitos das pessoas me acolhendo, as pequenas imperfeições nas paredes toscas, percebi quase todas as minhas hesitações e o sentido dos olhares amigos e afáveis que velavam minha presença ali. 
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Eu tinha razão: o espaço estava envelhecido e de repente me pareceu demasiadamente abandonado para receber minha música, minha presença que deveria ser tão envolvente quanto a emoção que eu sentia. O chão de taco, a cortina que não abria mais, as letras lá no alto: FrançAlegre, tudo parecia olhar-me com uma grande saudade. Como se eu ou aquela música que íamos ouvir – aquele estilo de vida que hoje eu transportava – fosse uma espécie de profanação de um local onde a vida fora tão exuberante e plena. E eu me postava tão séria, naquele momento. Tão consciente que me doíam as têmporas. Como se o coração pulasse dentro de mim sem trégua e eu deixasse vazar minha emoção por todo o ambiente.
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Encostei-me para trás e pousei as mãos no parapeito, naquela posição de espera tão tipicamente minha, embaralhando os sonhos pela bainha da chapada. Da janela. avistei o alto da serra, altiva em seus tons celestes. O azul se espalhou pelo recinto. Mas tudo já entrava em palco. A cena. O cenário.
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O resto não importa. Voltei!

Claude Bloc

4 comentários:

Jaques disse...

CBB,
Nada ou ninguém tem o poder de alterar ,mudar ou impedir que sentimentos com esses,mesmo que por alguns segundos ,que parecem pedaços de eternidade,brotem e nos arrastem nos seus redemoinhos pra esses relicários, presos nas nossas almas.

C'est magnifique, très magnifique !
A très Bientôt.
Bien Amicalement,
JAT

Rita Maria Lopes Guedes disse...

Amiga Claude,vivenciar e perceber as fases da vida, envolvendo-as em reminiscências, muitas vezes nos transportam e surpreendem.
O voraz tempo não perdoa, mas, deixa marcas de sublimação de vida. Ávida descortinei a sua dissertação sobre FrançAlegre e facilmente a nostálgica marca do tempo me contagiou.
De mãos dadas embarquei no túnel do tempo e embaralhei meus sonhos com os seus vivenciando a eterna saudade da minha terra natal.
Recordar é dar asas a imaginação e sentir o doce gosto da saudade.
Parabéns!
Um forte abraço
Rita Guedes

Aline Mendes disse...

Amei seu blog!!!! Quando fui sua aluna não imagina que vc tirava tão belas fotos. Muito lindo mesmo!! Parabéns!!

Dihelson Mendonça disse...

Diga, minha poetisa !

Estou passando para lhe trazer um beijo e um abraço.

Dihelson Mendonça